A eleição entrou na curva de juros. A 54 dias do primeiro turno, a campanha formal começa em 16 de agosto.
O que aconteceu
Até agora, a eleição presidencial de 2026 foi uma variável importante, mas ainda distante.
Isso muda nesta semana.
Os partidos têm até 15 de agosto para registrar formalmente suas candidaturas no Tribunal Superior Eleitoral, e a propaganda eleitoral passa a ser permitida a partir do dia 16.
Por que importa
Os números em evidência (44%, 39%, 45%, 37%, 48%) ajudam a medir o impacto no dia a dia de empresas e leitores de Macroeconomia e política econômica.
Consequência prática
O primeiro turno ocorre em 4 de outubro.
Em outras palavras, entramos na fase em que a disputa deixa de ser predominantemente uma sucessão de pesquisas e convenções partidárias e passa a ocupar televisão, internet, ruas e, inevitavelmente, as telas do mercado.
A segunda metade de agosto costuma ser o momento em que as campanhas ganham musculatura.
Setembro, por sua vez, concentra debates, maior exposição dos candidatos, propaganda mais intensa e uma sucessão de pesquisas com capacidade de mudar narrativas em poucos dias.
Isso importa porque a eleição não altera apenas a probabilidade de vitória de um nome.
Ela altera a percepção sobre política fiscal, juros, câmbio, crescimento e retorno exigido para financiar o Estado.
As últimas pesquisas eleitorais A eleição está aberta, mas a fotografia de hoje tem um líder.
Os quatro levantamentos nacionais mais recentes consultados para esta coluna colocam Lula à frente de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno.
A diferença, porém, varia entre quatro e pouco mais de seis pontos percentuais — pequena o bastante para manter a disputa competitiva a pouco mais de sete semanas da votação.
A Quaest divulgada em 5 de agosto é especialmente útil para entender o momento.
Lula aparece com 44% e Flávio com 39% no segundo turno.
Na rodada anterior, de 15 de julho, o placar era 45% a 37%.
Isso não significa uma virada, mas mostra que Flávio recuperou parte do terreno perdido e voltou a uma distância competitiva.
Ao mesmo tempo, Lula permanece na dianteira e continua liderando também os cenários de primeiro turno testados pelos principais institutos.
Por que a campanha formal pode mudar a fotografia Pesquisas realizadas antes do início da propaganda capturam um eleitorado ainda parcialmente desmobilizado.
Muitos brasileiros conhecem os sobrenomes dos principais candidatos, mas ainda não acompanham propostas, alianças, candidatos a vice ou o contraste diário entre as campanhas.
A partir de 16 de agosto, isso muda: a exposição aumenta e, com ela, aumentam também o escrutínio, a propaganda negativa e a necessidade de cada candidatura falar com eleitores que não pertencem ao seu núcleo mais fiel.
Esse ponto é particularmente relevante para Flávio Bolsonaro.
O senador conseguiu estabilizar parte do desgaste observado em momentos anteriores e aparece hoje em patamar competitivo nas simulações de segundo turno.
Ao mesmo tempo, sua candidatura ainda enfrenta dificuldade para ampliar alianças nacionais além do PL: partidos relevantes de centro e centro-direita optaram, até aqui, por não oferecer apoio nacional formal.
A campanha oficial será o teste para saber se o senador consegue transformar a fidelidade do eleitorado bolsonarista em expansão para fora dessa base.
Lula enfrenta um desafio diferente.
O presidente começa a campanha formal na liderança, mas não próximo de uma maioria confortável.
Os levantamentos mostram uma disputa polarizada e níveis elevados de rejeição aos dois principais nomes.
No Datafolha de julho, 48% diziam não votar de forma alguma em Flávio, e 46% afirmavam o mesmo em relação a Lula.
Em uma eleição desse tipo, crescer deixa de depender apenas de mobilizar a própria base e passa a exigir convencer um eleitor que rejeita um dos polos, desconfia do outro ou ainda considera alternativas.
Não custa reforçar que liderar a pesquisa não é o mesmo que controlar a eleição; estar competitivo não é o mesmo que ter rompido o teto da própria base.
Isso ajuda a entender por que a segunda metade de agosto e, sobretudo, setembro podem produzir mais volatilidade do que o primeiro semestre inteiro.
A campanha transforma fragilidades conhecidas em peças de comunicação repetidas diariamente.
O governo será cobrado por inflação, renda, fiscal e desempenho da economia; a oposição será submetida a maior escrutínio sobre alianças, capacidade de governar e consistência de suas propostas.
O que hoje parece estável pode mudar quando o eleitor menos politizado passar a prestar atenção.
A expressão 'pró-mercado' precisa sair do rótulo No debate financeiro, é comum reduzir a eleição a uma pergunta: qual candidatura seria mais ou menos 'pró-mercado'?
A expressão é pouco útil se não for traduzida em políticas concretas.
Para os preços dos ativos, importa saber como cada programa pretende lidar com a dívida pública, qual regra limitará o crescimento das despesas, quais receitas serão permanentes, como ficará a tributação, qual será a governança das estatais, qual o grau de segurança regulatória e, principalmente, que maioria política existirá para transformar propostas em leis.
Os sinais disponíveis ainda são incompletos.
A campanha de Lula discutiu a inclusão de um arcabouço fiscal mais restritivo no programa de reeleição, com menos exceções e limites menores para o crescimento do gasto.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, declarou que pretende reduzir impostos, conter despesas e aproximar a condução econômica daquela adotada no governo de seu pai; integrantes de sua equipe também defenderam uma revisão mais ampla da estrutura orçamentária.
São orientações relevantes, mas ainda não substituem um programa detalhado, sua matemática e a capacidade de aprovação no Congresso.